Pesquisas eleitorais 2026: como conferir os números
Saiba conferir registro no TSE, amostra, datas e margem de erro antes de compartilhar pesquisas do segundo turno.
As leituras salvas ficam neste dispositivo.

Uma pesquisa de intenção de voto pode circular com dois placares diferentes e, ainda assim, apresentar os mesmos entrevistados. O motivo costuma estar na base usada para calcular os percentuais: todas as respostas ou apenas as escolhas por candidatos. A uma semana do segundo turno de 25 de outubro, conferir essa distinção é o primeiro passo para não transformar uma manchete em uma conclusão que os dados não sustentam.
O cuidado também vale para imagens de tabelas compartilhadas sem data, instituto ou identificação do estudo. Uma diferença de poucos pontos não informa, sozinha, quem vencerá. Antes de repassar o número, o leitor precisa descobrir quando as entrevistas ocorreram, quem foi ouvido, qual pergunta foi feita e onde está o registro da pesquisa.
O mesmo levantamento pode ter dois percentuais
O levantamento Datafolha divulgado em 15 de outubro ilustra a diferença. Na conta que inclui todos os entrevistados, Flávio Bolsonaro tinha 47% e Lula, 45%. Na estimativa de votos válidos, que retira brancos, nulos e indecisos, os índices eram 51% e 49%. Trata-se de duas apresentações da mesma pesquisa divulgada pela Folha, não de uma virada entre levantamentos.
| Base divulgada | Flávio Bolsonaro | Lula | O que entra na conta |
|---|---|---|---|
| Total de entrevistados | 47% | 45% | Respostas por candidatos, branco, nulo e indecisão |
| Votos válidos estimados | 51% | 49% | Apenas respostas por um dos candidatos |
A distância observada entre os candidatos é de dois pontos nas duas linhas. O denominador é que muda. Os percentuais publicados são arredondados, de modo que refazer a divisão com os números da tabela pode produzir pequenas diferenças decimais. Comparar 51% de votos válidos de um estudo com 47% do total de outro criaria uma mudança aparente que não foi medida.
Na apuração oficial, votos válidos são os dados a candidatas e candidatos; brancos e nulos ficam fora da definição do resultado. Em uma pesquisa, a estimativa de válidos exclui também quem ainda não escolheu candidato. É uma forma de apresentar respostas de uma amostra, não uma contagem antecipada das urnas.
Confira a data das entrevistas, não só a da notícia
O estudo citado ouviu 2.520 eleitores em 153 municípios nos dias 13 e 14 de outubro. A divulgação ocorreu no dia seguinte. Essa separação importa: um acontecimento posterior à coleta não poderia ter influenciado aquelas respostas. Duas pesquisas publicadas na mesma data também podem retratar períodos distintos.
Para avaliar uma suposta alta ou queda, o caminho mais seguro é comparar rodadas do mesmo instituto, com a mesma base percentual, pergunta equivalente e abrangência semelhante. Mesmo nesse caso, uma oscilação pequena pode ser compatível com a incerteza amostral. O retrato de um grupo menor, como uma região ou faixa de renda, exige cuidado adicional: ele não representa automaticamente o país inteiro.
O que a margem de erro permite dizer
A margem de erro descreve parte da incerteza de uma estimativa obtida por amostragem. No Datafolha de 15 de outubro, a margem divulgada foi de dois pontos percentuais, e o resultado de 51% a 49% nos válidos foi classificado como empate técnico. A expressão não quer dizer que os candidatos tenham recebido exatamente a mesma proporção de respostas. Ela indica que a diferença observada não basta para afirmar, com a precisão informada pelo levantamento, uma liderança fora desse quadro de incerteza.
Também não se deve tratar os extremos da margem como placares previstos para o dia da eleição. Preferências podem mudar depois das entrevistas; comparecimento e decisão de pessoas indecisas tampouco estão determinados pela tabela. Pesquisa mede respostas em um período definido. Resultado eleitoral depende dos votos efetivamente depositados e apurados.
Como conferir o registro no TSE
O público pode abrir a consulta de pesquisas eleitorais do TSE e procurar o levantamento pelo número de registro divulgado, pelo instituto ou pelos filtros disponíveis no sistema PesqEle. A identificação do estudo ajuda a evitar que um gráfico antigo seja apresentado como se fosse novo.
No registro, confira pelo menos o contratante, as datas de campo, a abrangência geográfica, o tamanho e o desenho da amostra, a metodologia, o questionário, a margem de erro e o nível de confiança. O TSE informou que aprimorou em 2026 a apresentação dessas informações no PesqEle, inclusive com mais detalhes sobre o trabalho efetivamente realizado em campo.
O cadastro deve ocorrer até cinco dias antes da divulgação. Isso cria uma trilha pública para examinar o estudo, mas registro não é aprovação prévia dos resultados pela Justiça Eleitoral. O próprio TSE esclarece que não controla antecipadamente o conteúdo da pesquisa nem administra sua divulgação. Se um post de rede social disser apenas “pesquisa registrada”, ainda faltará conferir o que foi perguntado, como e quando.
Um roteiro curto antes de compartilhar
Leia a manchete e identifique a base: total ou válidos estimados. Anote o período de entrevistas e verifique se o estudo é nacional ou de uma localidade específica. Procure o número de registro e examine a ficha metodológica. Só então compare o resultado com outra rodada. Se a peça compartilhada não trouxer instituto, data e origem verificável, não a trate como retrato confiável do eleitorado.
Enquetes abertas em redes sociais também não substituem levantamentos com amostra planejada. Milhares de cliques podem mostrar a preferência de quem decidiu participar, sem representar o conjunto de eleitores. O mesmo raciocínio vale para volume de buscas na internet: procurar o nome de um candidato demonstra interesse pelo assunto, não voto declarado.
Para acompanhar a disputa sem perder o contexto, o portal já explicou os números de uma rodada específica do Datafolha. Na leitura de qualquer novo estudo, a regra continua a mesma: verificar a origem e comparar medidas equivalentes antes de concluir que o cenário mudou.

Converse sobre esta notícia
Compartilhe seu comentário ou uma dúvida sobre a matéria. Mantenha a conversa respeitosa e relacionada ao conteúdo.